Dona Ervilha

Por uma comunicação orgânica

Sobre a televisão: de Bourdieu à minha avó 07/01/2010

Filed under: Crítica — donaervilha @ 15:34
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Estou de férias no Ceará, minha terra natal. Entre uma praia e outra, tento dar conta do clássico “Sobre a televisão”, do Bourdieu. Nunca imaginei que teria tanto prazer com a leitura do sociólogo francês de quem tanto se teme nos meios acadêmicos. Sempre o imaginei pedante e ininteligível, tornando-o implicantemente dispensável na minha bibliografia. Só recentemente, num curso ministrado para alunos de mestrado e doutorado da UFF, escutei duas pessoas elogiarem esse autor, o que me provocou surpresa. Já me parecia dado o desprazer da leitura de Bourdieu quando tive acesso (ou interesse) à sua biografia e sua vasta produção literária. Por conta desse curso, passei superficialmente pelo “As regras da arte” e gostei de sua crítica, mas ao ficar frente a frente com uma ediçãozinha simpática de “Sobre a televisão” (da Jorge Zahar) seguido dos textos “A influência do jornalismo” e “Os jogos olímpicos” (nada mais adequado ao momento 2016), respirei fundo e resolvi encarar Bourdieu pra valer.

Assumo que estou pagando de nerd com esse livrinho pra cima e pra baixo pelo meu Cariri. Não sei se por ter sido escrito não só sobre a televisão, mas para a televisão (foi um curso do Collège de France transmitido por uma tevê francesa), a linguagem é bastante acessível e sinto vontade de recomendar a todo telespectador que seja. Não sou dessas que acha que a única solução para a televisão é desligá-la, como observou Martín-Barbero em outra obra fundamental sobre esse meio (“Os exercícios do ver”, Editora Senac SP). Apenas, como comunicadora, penso que é cada vez mais urgente descobrir formas de democratizar o tal “pensamento crítico” sobre um meio tão poderoso e hegemônico como a tevê. Para se pensar criticamente a comunicação que domina de uma maneira geral o nosso cotidiano, é importante que o leitor e o telespectador comum (não-especialistas) tenham acesso a informações básicas dos bastidores da produção dos discursos (jornalísticos, publicitários), da produção das imagens etc. Assim, ficaria mais fácil desnaturalizar aquelas informações recebidas como “a verdade dos fatos”, só porque “passou na televisão” ou porque “eu li no jornal” etc. Também por isso, “Sobre a televisão” é altamente relevante.

O mais curioso é que, aqui no Ceará, estou na casa da minha avó, que, como muitas pessoas no Brasil e no mundo, passa o dia in-tei-ro vendo televisão. Apesar da possibilidade de dispor dos canais pagos da tevê fechada, ela prefere ficar com os canais abertos em toda a sua variedade. Ela assiste de tudo e em todos os canais. Assim, estou tento uma oportunidade rara de observar a televisão aberta brasileira mais amplamente (coisa que poucas pessoas que pensam a televisão academicamente geralmente fazem; eu incluída). Aqui no Ceará, a programação da TV Globo é reproduzida pela TV Verdes Mares, parte de um gigantesco conglomerado empresarial da família do falecido Edson Queiroz, dono do jornal Diário do Nordesde, da universidade UNIFOR, da Ceará Gás Butano (agora parece que mudou para Nacional Gás), da Esmaltec, entre outras muitas empresas. [Para Bourdieu, é importante ter às vistas quem são os donos dos veículos de comunicação, pessoas físicas geralmente vinculadas a pessoas jurídicas de ramos diversos, apesar de também enfatizar que isso não explica nem justifica tudo].

Percebo que, de encontro às minhas expectativas, a TV Globo é a emissora que minha avó menos assiste. Ela prefere a Record (vários programas, mas atualmente não perde um “A Fazenda”, seguido de sua sátira “O curral”), o que me parece também ser resultado dos recentes mega investimentos dessa emissora. Ela também assiste muito ao SBT, para quem “no domingo não tem pra ninguém”. Há alguns canais locais, como TV Diário, TV Jangadeiro e TV Cidade, dos quais ela deleita-se com os programas mais violentos sobre notícias policiais locais (o tal jornalismo de sensações, ou sensacionalista). Ela também adora os talk-shows que têm a pretensão de resolver a vida das pessoas em rede nacional. Interessantíssimo observar os valores ali presentes, as visões de mundo, o que supostamente gera a mitológica audiência. Sabia que há programas que mantêm horas e horas de competição entre crianças que contam piadas? Para Bourdieu, “essas coisas tão fúteis são de fato muito importantes na medida em que ocultam coisas preciosas”. Podemos evitar, por hora, a complicada discussão (por ser geralmente preconceituosa e elitista) sobre a qualidade do conteúdo da tevê aberta. Bourdieu faz uma observação bem pontual que me agrada por sua simplicidade: esse tempo (tão valioso para o mundo da televisão) poderia estar sendo usado para outras coisas (talvez mais valiosas para o mundo). Simples assim.

Outro dia fui zapear, como se diz. Estava na TV a cabo, assumo. Mas parei foi na TV Escola, um canal do Ministério da Educação, num programa sobre Filosofia, que me esclareceu um bocado da vida e da obra do Nietzsche. Pendi pro lado dos “integrados” que acreditam na TV como poderoso instrumento de difusão da educação mesmo. Eu nunca li Nietzsche e aprendi um monte de coisas sobre ele. Bacana. Depois, zapeando mais, parei na TV Brasil, outra emissora pública, num programa interessantíssimo chamado “Lutas.doc”, um tipo de documentário que, a partir de entrevistas com gente interessante dos movimentos sociais, da política, historiadores etc., reconstruía uma história do Brasil a partir da desmistificação da “cordialidade” brasileira, apresentando outra(s) história(s) de lutas e de agressividade ocultadas (ou camufladas) na história oficial da nação. “Ah, então a televisão já está fazendo seu papel de meta-crítica e eu querendo descobrir a roda…”, pensei. Todo mundo se pergunta por que esse tipo de programa não “vende”. Não seria justamente esse o problema: determinar que tudo esteja sob a lógica neo-capitalista? Não seria mais interessante pensar em políticas públicas de comunicação, como no caso dessas emissoras, salvando os problemas que provavelmente elas têm (e quem não tem, não é mesmo?)? Qual o papel da escola nesse processo de conscientização? Essa discussão, inclusive, também vem lá dos tempos da roda. E segue circulando.

De uma maneira geral, “Sobre a televisão” em perspectiva com a programação da televisão brasileira – e as preferências televisivas da minha avó – rendem mil assuntos os quais não seriam adequados ficarem num mesmo post, como manda a etiqueta do texto online. Devo parar por aqui, pois realmente não prevejo um limite para a discussão que tem me interessado bastante. Só gostaria de deixar no ar mais umas coisinhas: a questão da “massa” (que diabo é isso, afinal?), e aquela ladainha de que “é isso que o povo gosta” (uma injustiça com esse tal de “povo”), a liberdade de escolha do controle remoto (temos esse poder mesmo, tendo em vista a circularidade da informação de que nosso recém-estimado Bourdieu também trata?) etc. etc. etc. Agora não sei se sigo atualizando o blog ou se faço um doutorado! Enquanto isso, que me perdoem os apocalípticos, mas o certo é que vou ver mais tevê pra poder pensar melhor.

 

 
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