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Ando pensando muito sobre o fim do mundo. Hoje mesmo. Domingo de sol, saía apressada para aproveitar a vida quando percebi uma movimentação no casulo que habita a micro-roseira perto da minha porta. Parei. A lagarta estava saindo do casulo. Não acreditei que veria aquela cena inimaginável, as asas abrindo, o voo. Continuei imóvel, esperando. O corpinho movendo-se para fora do casulo alcochoado (maravilhosamente arquitetado), mas ainda parecia-se muito uma lagarta, não exatamente uma borboleta. E assim era. Ela estava apenas com fome e buscava uma folhinha; o casulo ia com ela, como uma cauda. Enquanto ela comia, fiz umas fotos e um filminho. Se o mundo está acabando, eu não sei. Só sei que há coisas incríveis acontecendo no meu quintal.

Lagarta sai do casulo para um lanchinho
Impossível não citá-lo:
O apanhador de desperdícios
MANOEL DE BARROS
“Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.”

"dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes"
“Meu quintal é maior do que o mundo”
Manoel de Barros
Também penso que o mundo é meu quintal.