[Ao som de “Manhã de Carnaval”, do Candeia]
Já que estou submersa em livros no carnaval, vou fazer um post teórico-carnavalesco. É sobre Bakhtin, claro! Esse crítico russo tem sido cada vez mais lido nos dias atuais, ao que me parece, porque sua crítica é bastante vanguardista. Vale tratar aqui de alguns dos seus comentários sobre o carnaval na maravilhosa obra: “A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais” (Edunb, 1993). O título assusta, mas o livro é muito divertido, especialmente para pensar o carnaval e sua “dualidade do mundo”. Bakhtin analisa na obra de Rabelais essa inversão de valores tipicamente carnavalesca – o pobre finge ser rei, o rei finge ser plebeu – e a ideia da “renovação universal” obtida com a festa, que seria “a segunda vida do povo, o qual penetrava temporariamente no reino utópico da universalidade, liberdade, igualdade e abundância”. Segundo Bakhtin, durante o carnaval “o indivíduo parecia dotado de uma segunda vida que lhe permitia estabelecer relações novas, verdadeiramente humanas, com os seus semelhantes.”
Ele escreve coisas lindas sobre “a visão carnavalesca do mundo”, a qual abolia provisoriamente todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus. O carnaval seria “a autêntica festa do tempo, a do futuro, das alternâncias e renovações. Opunha-se a toda perpetuação, a todo aperfeiçoamento e regulamentação, apontava para um futuro ainda incompleto”. Em consequência a essas quebras e eliminações de barreiras momentâneas entre as pessoas, durante o carnaval acontecia um tipo particular de comunicação, inconcebível em situações normais. “Elaboravam-se formas especiais do vocabulário e do gesto da praça pública, francas e sem restrições, que aboliam toda a distância entre os indivíduos em comunicação, liberados das normas correntes da etiqueta e da decência”. (Obs.: É inevitável o espanto frente à constatação de que o espírito carnavalesco mantém-se quase inalterado no tempo e no espaço, apesar das mutações óbvias entre épocas, culturas e sistemas econômicos…)

Mas a chave do pensamento bakhtiniano que vai embasar (e talvez revolucionar) uma extensa corrente de estudos sobre a cultura na contemporaneidade está precisamente no trechinho a seguir, que diz: “…todas as formas e símbolos da linguagem carnavalesca estão impregnados do lirismo e da alternância e da renovação, da consciência da alegre relatividade das verdades e autoridades no poder. Ela caracteriza-se, principalmente, pela lógica original das coisas ‘ao avesso’, ‘ao contrário’, das permutações constantes do alto e do baixo (‘a roda’)…”. Na realidade, menos do que o trechinho, podemos dizer que o conceito-chave e revolucionário do pensamento sobre a cultura hoje em dia está nessas duas palavrinhas finais entre parênteses: a roda. (Eu adoro parênteses). O que isso quer dizer?
Numa de suas primeiras obras publicadas – “Marxismo e filosofia da linguagem” – Bakhtin analisa o signo como ideológico (não vou entrar nessa questão, juro) e usa uma denominação que nunca saiu da minha cabeça: “a reversibilidade intrínseca de toda ordem simbólica”. Isso quer dizer que todos os significados podem mudar; e que se um signo (não estou falando do zodíaco, pessoal) pode mudar (é simbólico, e o que é simbólico pra mim é diferente do que é simbólico pra você), isso significa, grosso modo, que TUDO pode mudar. O mundo às avessas do carnaval demonstra que “um outro mundo é possível” (opa!). Que a roda gira e o que é tido como mal hoje pode ser tido como bom amanhã e vice-versa. Que se você odeia Zezé de Camargo e Luciano e ama a Bethânia, mas ouve a Bethânia cantando “É o amor” e acha lindo, o que essa música simbolizava na sua cabeça mudou (não sem dor). E outros exemplos malucos assim.

O verdadeiro barato dessa Roda de sentido do carnaval, dessas “permutações constantes do alto e do baixo” e desse espírito humanista da visão de mundo carnavalesca, é justamente deixar claro e escancarado que esse tipo de experiência É POSSÍVEL, que esse tipo de abolição (tão supostamente complexa) das hierarquias e da experiência da igualdade EXISTE, é PALPÁVEL. O problema é que existe ilusoriamente apenas enquanto dura o carnaval. Depois da quarta-feira, as barreiras são repostas, a indiferença com os semelhantes volta a reinar, a normalidade do cada um por si – acabou o abraço grátis. Óbvio que a ideia aqui não é estender a loucura sem limites, a devassidão e tudo o mais que rola no carnaval como um mundo ideal, é claro. Falamos desses ideais que tantos almejam, “da consciência da alegre relatividade das verdades e autoridades no poder”, da tal da igualdade, da fraternidade. Esse sorriso todo, essa disposição pra ser feliz. Isso bem que podia continuar depois do carnaval, né?

É sempre assim:
“No carnaval / Não vou querer me fantasiar / Não vou querer me vestir de rei / Não quero mais colorir a dor / E se alguém quiser me aplaudir / Vai ter que ser assim como eu sou / Não quer dizer que não vou nem brincar / Só não quero é enganar o meu coração
No carnaval não vou mais sair fingindo / Que passo a minha vida inteira a cantar / Eu vou me divertir / Na certa eu vou sambar / Mas dessa vez a ilusão não vai me pegar / No carnaval eu sempre saí sorrindo / Me divertindo só pra desabafar / Três dias pra sorrir / Um ano pra chorar / Mas dessa vez a ilusão não vai me pegar ”
(Sem ilusão, Elton Medeiros)
Para meu eterno amigo Mary Who, in memorian, ótimas memórias de carnaval!